Decisão irrita chefe da Policia Civil

Data: 05/01/2006 | Hora: 16:45 | Por: PE360Graus.com


“Eu considero o pedido de novas investigações uma palhaçada, patrocinada pelo promotor de Ipojuca, Miguel Sales, e pelo procurador-geral, Francisco Sales”. Essa é a opinião do chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Aníbal Moura, sobre o pedido do promotor de novas investigações para o assassinato das jovens Maria Eduarda Dourado e Tarsila Gusmão, ocorrido em maio de 2003.

Para Moura, o caso foi levado para o lado particular. “É algo pessoal, contra mim. O promotor está com vergonha de dizer que errou e por isso continua pedindo mais investigações”, acredita. Perguntado sobre o que fará se receber a notificação judicial autorizando as novas diligências e a designação de um delegado especializado em homicídios, Aníbal Moura foi irônico. “Sem querer ser cômico, porque o caso é trágico: ainda não fui comunicado oficialmente e quando for, vou ter que enviar ofício para a Nasa, a CIA e o FBI”, disse, se referindo às instituições espaciais e policiais dos Estados Unidos.

O procurador-geral do Ministério Público, Francisco Sales, disse que não é elegante fazer comentários de natureza pessoal a respeito de problemas profissionais. Ele disse também que não quer misturar questões relativas aos autos do inquérito para não desviar a atenção do assunto principal, afirmando que não vai responder no mesmo tom aos comentários feitos sobre ele pelo chefe da Polícia Civil. Francisco Sales finalizou dizendo que a resposta que o Ministério Público quer sobre o caso é técnica, que são as provas. O promotor de Ipojuca, Miguel Sales, também não quis comentar as declarações de Aníbal.

JUSTIÇA

Até o fim da tarde desta quinta-feira (5), a juíza Andrea Calado, titular da vara de Ipojuca, deve dar uma definição se autoriza ou não a solicitação do promotor Miguel Sales para as novas investigações do Caso Serrambi. A tendência é que a magistrada autorize o pedido da promotoria. Como esta quinta-feira é o último dia como juíza na cidade, Andrea Calado chegou cedo ao fórum de Ipojuca, para dar conta e ler todas as peças do processo. Caso ela não tenha tempo hábil para dar a decisão, a tarefa deverá ficar para a nova juíza, Luciana Tavares.

Durante uma entrevista coletiva na quarta-feira (4), o promotor Miguel Sales anunciou que vai solicitar à Justiça que peça à Polícia Civil de Pernambuco para realizar novas investigações sobre o assassinato das adolescentes. Sales disse ter encontrado diversas falhas nas duas investigações do caso, feitas pela Polícia Federal e Polícia Civil de Pernambuco. A mãe de Tarsila, Alza Gusmão, estava presente à coletiva e não gostou do que ouviu do promotor. “Questionar essas coisas para se levar mais tempo ainda nisso?”, perguntava.

Para o promotor, o estudo dos restos mortais das garotas e a apuração no local onde foram encontrados os corpos, no distrito de Camela, em Ipojuca, também tiveram falhas. Além disso, Sales acredita que pessoas importantes não prestaram depoimentos. Um dos erros mais graves do Caso Serrambi, na ótica do promotor, está no fato de o crime não ter sido investigado por um delegado vinculado à Delegacia de Homicídios, especializada em assassinatos.

“Não importa ser polícia Civil ou Federal, o que interessa é que o caso seja investigado sem deixar vácuos, lacunas, omissões, que seja elucidado. Não adianta fazer uma composição formal do processo e denunciar Fulano, Sicrano e Beltrano sem provas satisfatórias, e o processo ganhar as raias da prescrição e da impunidade”, disse Miguel Sales. O promotor informou ainda que não tem poder para obrigar a Polícia Civil a fazer novas investigações. Por isso, disse que solicitou a nova rodada de diligências à juíza de Ipojuca, Andrea Calado.

De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Defesa Social, o secretário João Braga não quis se pronunciar sobre a solicitação do promotor de Ipojuca. Ainda segundo a assessoria, o secretário só poderá comentar a decisão após receber um comunicado oficial.

O advogado da família Dourado, Gilberto Marques, diz que os pais de Maria Eduarda concordam com a postura do promotor Miguel Sales. “Eu pensei que ia discordar frontalmente do promotor, mas quando ele me deu o texto e eu li, cheguei à conclusão de que, mais uma vez, nós vamos casar com a decisão do Ministério Público, no sentido de mergulhar e obter a verdade que dói em Pernambuco”.

INQUÉRITOS

Nas investigações feitas pela Polícia Federal, os irmãos kombeiros Marcelo e Valfrido Lira foram acusados do crime. Miguel Sales recebeu o inquérito junto com os resultados de dois exames: o de luminol, executado na Kombi de Marcelo Lira, e o de DNA, realizado nos fios de cabelo encontrados no interior do veículo. De acordo com a Justiça, os resultados dos dois exames não trouxeram novidades para as investigações.

Os irmãos Marcelo e Valfrido Lira foram indiciados tanto ns inquérito da Polícia Civil quanto no segundo, conduzido pela Polícia Federal. Os dois chegaram a ser presos pelo duplo homicídio, passando dois meses na prisão. Porém, o Ministério Público devolveu ambos os inquéritos por falta de provas e os irmãos estão em liberdade.

As vítimas desapareceram, em maio de 2003, durante um fim de semana que foram passar na praia de Serrambi. Elas foram vistas pela última vez no dia 3 de maio e os dois corpos foram encontradas dez dias depois, em estado avançado de decomposição, num canavial localizado no distrito de Camela, em Ipojuca.

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